Minas Gerais enfrenta uma situação alarmante, consolidando-se como o estado com maior risco de barragens de rejeitos de mineração em todo o Brasil. Conforme dados recentes do Observatório de Barragens de Mineração da UFMG, divulgados em fevereiro deste ano (2026), o território mineiro abriga sozinho 319 das 911 estruturas existentes no país, um número que supera a soma de outros 16 estados brasileiros. Esse cenário impõe uma ameaça direta e grave ao fornecimento de água para milhões de cidadãos, gerando preocupação sobre a segurança hídrica estadual.

A vulnerabilidade é intensificada pela localização estratégica de muitas dessas estruturas. Das 319 barragens de rejeitos, impressionantes 62, o que representa 19,4% do total, estão situadas diretamente acima do principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Este sistema é vital para uma população estimada em cerca de seis milhões de habitantes, segundo o IBGE. O perigo mais crítico reside no fenômeno do "galgamento" ou onda de inundação: em caso de rompimento, a lama e os rejeitos atingiriam infraestruturas de tratamento ou energia em questão de minutos, causando destruição completa e imediata. Estudos de Dam Break (propagação de onda de inundação) realizados por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontam que, à semelhança do ocorrido em Brumadinho em 2019, instalações administrativas e operacionais foram soterradas em menos de cinco minutos após a ruptura da Barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale. O potencial de destruição atinge até 1,7 milhão de domicílios particulares.

O Sistema Integrado Rio das Velhas, com sua captação em Bela Fama, no município de Nova Lima, é um pilar crucial, responsável por aproximadamente 70% do abastecimento da capital mineira e atendendo cerca de 2,5 milhões de residentes da Região Metropolitana. Operando de forma integrada com o Sistema Paraopeba, ele compõe a espinha dorsal do fornecimento hídrico. No entanto, a Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama convive com uma alta concentração de barragens de mineração em suas proximidades. Auditorias do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) revelaram que qualquer rompimento na área poderia gerar uma mancha de inundação que desabasteceria milhões de pessoas. A captação direta do leito do Rio das Velhas, sem um reservatório de acumulação próprio, significa que a chegada de lama ou rejeitos inviabilizaria o tratamento instantaneamente, ecoando o colapso do Rio Paraopeba em 2019, considerado o maior acidente de trabalho da história do Brasil e um dos piores desastres socioambientais globais. A combinação perigosa da alta densidade de estruturas de rejeitos e sua proximidade com as estações de tratamento de água transforma Minas Gerais em um "tabuleiro de vulnerabilidades", onde o colapso de uma única barragem pode desencadear um efeito dominó, comprometendo a segurança hídrica e provocando um "apagão" imediato no abastecimento.

Adicionalmente, a auditoria do TCEMG revelou um risco muitas vezes subestimado: os impactos da estiagem prolongada na segurança das barragens e pilhas de rejeitos. Relatórios técnicos analisados registraram ocorrências como trincas, sismos, erosões e escorregamentos em estruturas monitoradas após eventos climáticos extremos. A redução prolongada da umidade pode causar retração do solo e dos materiais que compõem essas estruturas, favorecendo fissuras e alterando a infiltração de água, comprometendo a estabilidade. Embora representantes da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) tenham minimizado o risco, argumentando que as estruturas "já sofreram esse impacto" anteriormente, a conclusão do relatório do TCEMG é categórica: o risco é iminente e elevado. Pesquisadores e ambientalistas consultados corroboram essa visão, indicando que muitas dessas estruturas carecem de sistemas de drenagem adequados para chuvas extremas. A socióloga Leila da Costa Ferreira, professora da Unicamp e especialista em políticas ambientais, questiona se as ações governamentais atuais são efetivas ou meros paliativos. O TCEMG também apontou que a Feam não possui protocolos específicos para inspeções extraordinárias após eventos climáticos extremos, nem diretrizes claras para avaliar seus efeitos em barragens consideradas críticas.

As deficiências se estendem à gestão e comunicação entre os órgãos estaduais e municipais. A auditoria do TCEMG identificou limitações na rede estadual de monitoramento hidrometeorológico do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), com a necessidade urgente de manutenção mais regular das estações que monitoram chuvas e níveis de rios. A situação é particularmente preocupante no Sul de Minas, enquanto o Triângulo Mineiro demonstra algumas iniciativas. Além disso, o fluxo de informações entre o Igam, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) e as defesas civis municipais ocorre predominantemente por meio de grupos de WhatsApp e outros canais informais. A questão não é o uso da tecnologia, mas a ausência de um protocolo de comunicação oficial e institucionalizado, que pode levar a um colapso do sistema de emergência em momentos críticos. Foi observada também a falta de avaliação da efetividade dos alertas emitidos pela Cedec, ou seja, se a mensagem realmente chegou, foi compreendida e gerou alguma resposta. Em uma emergência, simplesmente enviar um alerta não garante uma comunicação eficaz. A Defesa Civil, que será foco de uma próxima reportagem do Portal Minas, apesar de contar com corpo técnico qualificado, ainda opera em um modelo que prioriza a resposta pós-desastre, revelando uma lacuna em Minas Gerais para uma política perene de planejamento e antecipação de desastres ambientais.

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