Autoridades prevêem novo aumento na conta de luz em MG e já apontam culpado: fenômeno El Niño
Setores econômicos de Minas Gerais já manifestam apreensão diante da iminente formação do fenômeno El Niño nos próximos meses. Especialistas alertam que as alterações climáticas, incluindo o aumento das temperaturas e mudanças no regime de chuvas, podem gerar pressão sobre os custos de energia elétrica, com repercussões diretas para a indústria e o agronegócio do estado. Há uma forte probabilidade de o El Niño se consolidar ainda neste inverno, com projeções da Organização das Nações Unidas (ONU) indicando mais de 90% de chance de desenvolvimento até novembro deste ano. A matéria foi publicada em 09 de junho de 2026, às 07:30, por Bernardo Haddad.
Em Minas Gerais, as principais preocupações giram em torno do calor acima da média, da irregularidade das chuvas e do estresse potencial sobre o sistema elétrico nacional. Sérgio Pacata, coordenador do mercado de energia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), destaca que o fenômeno pode elevar o consumo de energia em uma região que já concentra a maior demanda elétrica do país. Pacata explica que "cada grau que a temperatura sobe significa milhões de aparelhos de ar-condicionado ligados ao mesmo tempo. Isso aumenta muito a demanda por energia elétrica no Brasil. Se você tem uma demanda maior e reservatórios pressionados, o preço da energia sobe e o sistema elétrico fica mais estressado”. Ele acrescenta que o cenário é preocupante, pois o sistema já opera com usinas termelétricas acionadas, que são mais caras. "Toda vez que isso acontece, alguém paga essa conta. O custo da geração fica mais elevado e esse impacto chega tanto para a indústria quanto para o consumidor comum, por meio das bandeiras tarifárias e do aumento do preço da energia”. A Fiemg antevê o possível acionamento da bandeira vermelha de energia elétrica nos próximos meses, caso o fenômeno se intensifique. Os setores industriais mais vulneráveis são os eletrointensivos, como alumínio e borracha, onde a energia representa uma parcela significativa dos custos de produção.
Os impactos do El Niño também são motivo de grande preocupação para a cadeia cafeeira mineira. Mudanças bruscas nas chuvas e elevação das temperaturas podem afetar a produtividade, a qualidade dos grãos e os custos operacionais do setor. Sérgio Meirelles, presidente do Sindicato das Indústrias de Café do Estado de Minas Gerais (Sindicafé-MG), afirma que a intensificação do El Niño eleva o risco climático para o café mineiro, principalmente ao causar temperaturas elevadas e chuvas mais irregulares. “Isso pode gerar estresse hídrico, abortamento floral e menor enchimento dos grãos”, diz. Meirelles detalha que a falta de chuva na florada pode reduzir a produtividade, o calor excessivo acelerar a maturação e comprometer a qualidade da bebida, e o excesso de chuva próximo à colheita aumenta riscos de fermentação, fungos e perdas. Ele também aponta para o impacto dos custos de energia elétrica, essenciais para irrigação, secagem, armazenagem e beneficiamento do café, disseminando-se por toda a cadeia.
Anete Fernandes, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), esclarece que o El Niño se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica e interferindo no clima global. No Brasil, isso geralmente resulta em aumento das chuvas no Sul e temperaturas mais altas no Sudeste e Centro-Oeste. Para Minas Gerais, os efeitos tendem a ser calor intenso e chuvas mal distribuídas, com precipitações ocorrendo em pancadas isoladas e longos períodos de estiagem. Fernandes recorda que o último episódio do fenômeno, em 2023, provocou ondas de calor sucessivas em Minas, inclusive durante o inverno. Embora as projeções indiquem a formação do fenômeno, especialistas ressaltam que ainda não é possível prever com exatidão sua intensidade ou o tamanho dos impactos econômicos, os quais dependerão do comportamento das chuvas e das temperaturas nos próximos meses. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) foi contatada para comentar os potenciais impactos do El Niño, mas não houve retorno até o momento da publicação.
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