Quase a metade de todas as crianças e adolescentes no mundo, um contingente que soma 1,1 bilhão de indivíduos, encontra-se exposta a pelo menos três ameaças climáticas distintas. Tais riscos comprometem diretamente sua saúde, educação e, em última instância, sua sobrevivência.

As conclusões alarmantes emergem de um relatório abrangente sobre risco climático infantil, divulgado nesta segunda-feira, 15 de janeiro. O estudo indica que, globalmente, praticamente todas as crianças enfrentam ao menos um risco climático, enquanto um grupo de mais de 4 milhões pode estar sujeita a até seis perigos diferentes simultaneamente.

No cenário brasileiro, o documento revela uma situação preocupante: 16 milhões de meninos e meninas estão expostos a três ou mais perigos climáticos, como ondas de calor e secas, o que representa três a cada dez jovens no país. Ampliando o olhar para dois ou mais riscos, o número sobe para mais de 30 milhões de crianças e adolescentes, ou seja, seis a cada dez, que convivem diariamente com essas adversidades.

A análise utiliza os dados mais recentes para mapear a exposição da população infantil e adolescente a oito das ameaças climáticas mais comuns em escala global: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes de rios, tempestades de areia e poeira, e tempestades tropicais. É a primeira vez que um relatório detalha a localização e a intensidade da sobreposição de múltiplas ameaças climáticas sobre as crianças e os serviços públicos essenciais de que dependem, além de propor caminhos para governos agirem.

De acordo com Catherine Russell, diretora executiva de uma das entidades responsáveis pelo levantamento, a rotina das crianças continua profundamente abalada por eventos como ondas de calor, incêndios florestais, secas e inundações. A combinação mais frequente de riscos climáticos observada é seca, calor extremo e ondas de calor, afetando mais de 296 milhões de crianças e adolescentes. A segunda combinação mais comum, envolvendo seca, calor extremo e tempestades tropicais, atinge mais de 115 milhões de crianças em todo o planeta.

Geograficamente, a região do Sahel, na África, é uma das mais castigadas, com mais de 4 milhões de crianças enfrentando a tripla ameaça de ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira. Países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão expõem suas crianças a um número maior e mais intenso de ameaças climáticas em comparação com outras partes do mundo. Mesmo nações de alta renda sentem os impactos: na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças e adolescentes enfrentam ondas de calor prolongadas e secas.

Além das oito ameaças mais frequentes, o estudo também examina a exposição de crianças à poluição do ar e à malária, riscos altamente sensíveis às alterações climáticas. Quase todas as crianças globalmente são afetadas pela poluição do ar, enquanto 1 bilhão de meninos e meninas estão expostos à malária, adicionando uma camada extra de perigo para aqueles já confrontados com múltiplos riscos climáticos. No Brasil, o quadro é similar, com 95% das crianças e adolescentes (47 milhões) expostas à poluição do ar e 5,6 milhões (11% da população infantil) expostas à malária.

O relatório alerta para a urgência de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, caso contrário, as ameaças climáticas se tornarão ainda mais frequentes e intensas, pressionando orçamentos públicos, sistemas governamentais e comprometendo o bem-estar infantil. Para salvaguardar os direitos das crianças e combater a crise climática, o estudo recomenda medidas como a redução ambiciosa de emissões, transição justa para energias renováveis, e a proteção de crianças por meio de adaptação climática inclusiva e respostas eficazes a desastres. Também enfatiza a necessidade de incluir políticas fundamentais para crianças em planos nacionais, criar ambientes seguros e verdes, garantir segurança alimentar e empoderar crianças e jovens na ação climática.

Catherine Russell reitera que este levantamento pode ser um recurso valioso para governos e tomadores de decisão, auxiliando no planejamento e investimento mais eficaz em serviços resilientes.