O pré-candidato à Presidência e ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, causou desconforto entre seus próprios aliados ao declarar preferência por uma mulher ou um negro para compor sua chapa como vice. A fala, proferida em entrevista nesta segunda-feira, marca uma guinada contraditória na trajetória do político, que sempre foi um crítico ferrenho de políticas de cotas e um defensor intransigente da meritocracia pura. Ao sugerir que o critério de escolha será baseado em gênero ou raça para dar uma conotação de pesos diferentes, Zema parece atropelar os princípios ideológicos que o lançaram na vida pública em prol de um pragmatismo eleitoreiro.

A mudança de postura é vista como uma tentativa desesperada de reduzir sua alta rejeição em setores progressistas e diversificar um palanque historicamente homogêneo e tecnocrático. Críticos apontam que, ao priorizar características identitárias em detrimento da competência técnica ou da trajetória política pilares que ele sempre exigiu de seu secretariado em Minas, o ex-governador incorre no que antes chamava de populismo. Essa estratégia de marketing político gera um desgaste imediato em sua base mais fiel, que enxerga na fala um abandono da coerência em troca de uma tentativa artificial de parecer inclusivo diante do eleitorado nacional.

Os desdobramentos dessa declaração evidenciam uma fragilidade na construção de sua identidade como candidato, ao tentar emular pautas que ele combateu durante toda a sua gestão. Ao se mostrar disposto inclusive a abrir mão da cabeça de chapa para ser vice de Flávio Bolsonaro, Zema reforça a imagem de um político disposto a flexibilizar qualquer convicção para garantir sobrevivência nas urnas. O recuo no discurso da meritocracia para adotar critérios de representatividade por conveniência pode custar caro à sua credibilidade, expondo um vácuo entre o que o candidato pregava como princípio e o que agora pratica como estratégia de poder.